Grandaddy – Last Place (Columbia; 2017)

06.03.2017 — Música, Resenhas

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Existe um sentimento comum, assim eu percebo, que une os fãs do Grandaddy e, tendo escutado os discos da banda por mais de quinze anos, hoje eu vejo que o sentimento que nos une é bem parecido, se não o mesmo, ao que une os fãs de Bartleby, o escrivão, novela de Herman Melville. Last Place, novo disco do grupo após uma pausa de 11 anos, veio para corroborar essa teoria.

Musicalmente, o espírito de Bartleby vem com a mesma roupagem que o Grandaddy já usava antes, com o marasmo californiano que a voz de Jason Lytle carrega, com a simplicidade das canções, mas uma alternância rica de tempos (passados, presentes e futuros) e uma melancolia intrínseca que pode ser associada ao escrivão, mas não só, claro. A novidade fica por conta da linda produção de Danger Mouse que conseguiu expandir o som do Grandaddy como havia feito com Dreamt For Light Years In The Belly of a Mountain, do Sparklehorse, em 2006.

Mas não é musicalmente e, sim, liricamente que eu vejo essas obras se aproximando. É a negação feita de forma natural no verso “That is the way we won’t / We won’t” que poderíamos recriar como “That is the way we prefer not to”. Ou então no arrependimento honesto, mas semi contente de “I just moved here and I don’t want to live here anymore”. Em “That’s What You Get For Gettin’ Outta Bed”, uma balada triste que remete ao clássico The Sophtware Slump (2000), Jason retrata magistralmente, isso aqui significa sem esforço, nossa batalha cotidiana contra a resignação onde o resultado é mais uma agridoce canção no fim do dia: “That’s what you get for gettin’ outta bed / Warming up your heart and clearing up your head”. “Where there is peace / You will not find me”, canta Jason na sequência, em mais um pedaço de pura verdade, mas acompanhada de uma grandiosidade musical que dá um ar devastador de Mercury Rev a “This Is The Part”. E, apesar de tantos versos que me deixam encarando a tela do computador totalmente inerte, é “Songbird Son”, a derradeira, que me paralisa de vez: “The songbird son died quiet / Songbird son you lost your right to sing / Message better left unsaid / Don’t say nothing”.

Jason Lytle havia dito, quando anunciou a reunião de sua banda, que ele tinha mais um disco a lançar como Grandaddy. Essa frase faz total sentido se percebermos a alegria dos teclados de “Way We Won’t”, o riff bem Sumday (2003) de “Brush With the Wild”, o interlúdio tão Grandaddy de “Oh She Deleter :(“, o alt-rock simples de “Check Injin”, a saudosista “Jed the 4th” e toda a segunda metade voltada para reforçar esse sentimento que une os fãs do Grandaddy. Sentimento indescritível por trazer novamente aquele ar misterioso em forma de silêncio e um sorriso de canto de boca de todos nós.

Message better left unsaid, don’t say nothing.

8.8