10 momentos musicais dos filmes de Richard Linklater

27.04.2017 — Matérias, Música

O tempo é crucial na obra de Richard Linklater, muitas vezes o melhor amigo do(s) protagonista(s) de seus flmes. Não digo isso só pelos doze anos de produção com os mesmos atores de Boyhood (2014), mas também pelo acompanhamento próximo de um dia (três vezes) da dupla Céline e Jesse e a diferença exata de nove anos entre os três filmes da trilogia – Before Sunrise (1995), Before Sunset (2004) e Before Midnight (2013), pelos acontecimentos aleatórios entrelaçados numa grande sequência em Slacker (1991), pela sequência teatral de Tape (2001) com três personagens resolvendo o filme numa noite em um quarto de motel, pela sequência de sonhos de Waking Life (2001), pela derradeira e única noite de SubUrbia (1996), pelo ultimo dia de colégio de Dazed and Confused (1993) e o fim de semana pré faculdade de Everybody Wants Some!! (2016). Enfim, para Linklater conhecer uma fração da vida de seus personagens revela o suficiente para o público conhecê-los, entendê-los e se apaixonar por cada um deles. Essa frase poderia servir para qualquer filme do mundo, mas as frações de Linklater parecem ser mais restritas e os acontecimentos muito banais e cotidianos o que dá um grande charme para seu estilo e seus filmes.

O acompanhamento próximo acontece nos inúmeros diálogos que, consequentemente, possibilitam muitas partes silenciosas e é justamente nesses momentos que a música entra em seus filmes, para quebrar o ritmo ou complementar seus personagens. Mas, apesar do tempo e do silêncio, é a diversidade de seus filmes, mostrada nesse apanhado de momentos musicais e analisando sua carreira, que acaba chamando mais a atenção. Escute a mixtape com as músicas escolhidas nesse post, compare School of Rock (2003) ou Me and Orson Welles (2008) com Slacker ou Before Sunrise, entre de cabeça no Texas de Bernie (2011), The Newton Boys (1998) ou Boyhood (2014), ou então na juventude suburbana de SubUrbia e compare com a de Dazed and Confused e entenda que Linklater é um texano comum, mas que gosta de retratar os pequenos acontecimentos e sutilezas da vida que nos diferenciam.

Contém spoilers, cenas finais, etc.

1. Horst Wende & His Orchestra – “Skokiaan” (Slacker; 1991)

A preocupação de Richard Linklater com o tempo e o acaso em seus filmes já fica claro em Slacker, sua estreia, com a sequência de encontros aleatórios que revelam fragmentos da vida de dezenas de personagens. Sobre essa aleatoriedade de acontecimentos na qual muitas vezes nosso dia a dia se transforma, sempre imaginei que cada um de nós possui um fio invisível que sai de nossas cabeças e sobe até o infinito e a vida é esse grande emaranhado de fios que a gente consegue criar e acumular ao cruzar com todas as pessoas que passam pelas nossas vidas, algumas poucas, outras milhares de vezes. Slacker me traz de volta esse pensamento e a cena final arranca de mim um grande sorriso pela linda versão de “Skokiaan” que o alemão Horst Wende e sua orquestra fizeram para o clássico africano. Toda a aleatoriedade do filme e da cena final, toda a liberdade que Linklater tem para essa estreia independente funciona muito bem com essa música para cima e extremamente marcante.

2. Lynyrd Skynyrd – “Tuesday’s Gone” (Dazed and Confused; 1993)

Apesar das milhares de músicas que rolam em Dazed and Confused, não existem muitos momentos musicais extremamente marcantes nesse clássico de Linklater. Mas a questão dessa trilha é sonorizar o último dia de aula em um colégio americano em 1976, portanto somos bombardeados por todos os lados: ZZ Top, Alice Cooper, Foghat, Aerosmith, Kiss, War, Nazareth e muitos outros. A cena que fica para mim, porém, é quando “Tuesday’s Gone”, do Lynyrd Skynyrd, toca. Aquela melancolia de fim de festa começa a pairar como uma neblina na cara dos personagens e o azul começa a aparecer no até então preto céu. É hora de arrumar as coisas e pegar seus belos carros para voltar para casa. Como de costume, Linklater passa longe dos julgamentos de seus diversos personagens. Apenas o técnico, o único adulto relevante do filme, ganha a caracterização de um vilão, de resto, não importa. Cada um vai tomando o seu rumo de casa enquanto “Tuesday’s Gone” vai se misturando com a manhã.

3. Kath Bloom – “Come Here” (Before Sunrise; 1995)

A única cena musical de Before Sunrise é justamente quando Céline, Julie Delpy, e Jesse, Ethan Hawke, entram em uma loja de discos em Viena e ela pergunta se ele conhecia Kath Bloom. Após a resposta negativa de Jesse, os dois simplesmente ficam dentro da cabine escutando a “Come Here” em silêncio. É com Kath Bloom e o silêncio que Linklater garante a primeira conexão do casal. Na verdade, Céline sempre se comunicou melhor nas entrelinhas, enquanto Jesse se exaspera, como um bom representante do tipo homem, e essa cena mostra bem isso.

4. Sonic Youth – “Bee Bee’s Song” (SubUrbia; 1996)

SubUrbia é, em resumo, uma espécie de Clerks se o mesmo fosse dirigido por Linklater. Saem os palhaços Jay e Silent Bob e entram o bobalhão, o anárquico, a artista, o cínico e a depressiva. Sim, uma turma de adolescentes bem cliché e, por isso, real que apenas se encontram, bebem cerveja e ouvem música na frente da loja de conveniência. Mas uma turma também capaz de encenar diálogos muito precisos revelando aos poucos como funciona a pacata Burnfield, a SubUrbia em questão. Apesar da entrada maravilhosa do filme com Gene Pitney, é o Sonic Youth, mais especificamente Kim Gordon, que se destaca numa trilha com Boss Hog, Girls Against Boys, Pennywise e tantos outros nomes da época, e dá personalidade a Bee Bee numa cena bonita e familiar a todos, onde a garota tímida dançando sozinha ao som de Sonic Youth é abordada pelo bobalhão que só quer levá-la para a van e a conversa vai revelando potencial para algo mais significativo e profundo, mas que nunca se concretiza de verdade.

5. Tosca Tango Orchestra – “Ballade 4, Part 1” (Waking Life; 2001)

Waking Life é um mundo todo à parte com diálogos filosóficos muito reais, mas ao mesmo tempo com um clima muito distante da realidade, e que extrapola tudo que Richard Linklater havia feito em Slacker. Saem os atores amadores e toda conversa banal para dar espaço a atores reais, com uma camada de animação, com conversas profundas e rápidas que passam por todos os cantos de nossa consciência cutucando diversas verdades que existiam escondidas por lá. Um filme incrível e ambicioso que ganha ares mais complexos ainda com a trilha do Tosca Tango Orchestra. A cena final do protagonista que finalmente parece acordar, mas começa a flutuar ao som da orquestração levemente dramática cola na retina enquanto tentamos processar todo o filme.

6. Stevie Nicks – “Edge of Seventeen” (School of Rock; 2003)

Eu gosto de School of Rock. É preciso tirar isso da frente para podermos seguir no post. E, apesar de tanta cena musical engraçada em uma história ingênua, mas tão bem contada, essa especificamente entre Jack Black e Joan Cusack ao som de Stevie Nicks destoa de todo o resto justamente porque sabemos o que esperar de Jack Black, mas não de Joan, diretora da escola que sai para tomar uma cerveja inocente e acaba sendo levada a aprovar uma excursão escolar pelo poder de persuasão de “Edge of Seventeen” e seu refrão grudento e bem anos 80. Esse é o exato momento quando o personagem de Joan é revelado e daqui em diante tanto o Jack, quanto as crianças da escola e todos nós sabemos que podemos confiar nessa diretora.

7. Nina Simone – “Just In Time” (Before Sunset; 2004)

Ao contrário de Before Sunrise, que ainda vinha com algumas canções, não cabe muita trilha ou cenas musicadas em Sunset. A dupla Jesse e Céline faz o filme fluir só com suas conversas reprimidas de dez anos com doses na medida de humor, raiva, rancor e carinho. Sem dúvidas o meu preferido da trilogia por traduzir o pouco tempo que parece existir entre eles em tão pouco tempo de filme (uma hora e vinte) com atropelos na conversa entre ambos que são ótimos de se assistir. O ápice desse encontro com certeza é a valsa que Céline toca ao violão para Jesse deixando para a sequência final, resumida numa valsa, tudo aquilo que ele tenta explicar o filme todo e ela basicamente escuta. Mas é na personificação de Nina Simone, na sequência da valsa, que você vê a realização do filme, o relaxamento dos dois personagens e da falação toda. Antes mesmo das últimas palavras de Jesse.

8. The Florida Boys – “Love Lifted Me” (Bernie; 2011)

Apesar de Jack Black entregar muito em School of Rock, tudo que ele entrega já era esperado, até demais. Em Bernie, porém, mais precisamente nessa cena de apresentação do protagonista, somos surpreendidos porque “Love Lifted Me”, do Florida Boys, é perfeita para Jack Black, mas totalmente inesperada. Bernie andando de carro pela sua cidade, enquanto canta e interpreta cada verso de “Love Lifted Med” traduz muito bem do que se trata essa pessoa (real), as explicações ao longo da cena são quase irrelevantes.

9. Wilco – “Hate It Here” (Boyhood; 2014)

Boyhood é um filme estranho porque ele é propositalmente datado. Seja com a introdução com Coldplay ao fundo, hit na época em que o filme começou a ser filmado, com Samantha assistindo ao então controverso clipe da Beyoncé com a Lady Gaga, lançado em 2009, com as conversas via Skype entre pai e filho e diversos outros momentos que são quase vergonhosos de tão recentes para serem lembrados em filme dessa maneira. Musicalmente falando, o filme também é datado , mas o momento mais marcante, não só pela canção escolhida, que gosto muito, é quando o pai de Sam canta e explica “Hate It Here”, do Wilco, pro seu filho (assista à cena aqui). Assim como “Love Lifted Me” explicava bastante sobre Bernie, “Hate It Here” resume a vida do personagem de Ethan Hawke na primeira parte do filme de forma bem precisa.

10. Sugarhill Gang – “Rapper’s Delight” (Everybody Wants Some!!; 2016)

De cara, Everybody Wants Some!! parece mais uma sequência de American Pie do que Dazed and Confused, mas aos poucos os personagens do time de baseball da faculdade vão mostrando suas individualidades e acompanhar o fim de semana do bando fica um tanto mais divertido. Enquanto Dazed era recheado de clássicos dos anos 70, Everybody homenageia a década de 80 em alto estilo com Devo, Cars, The Knack, etc, mas a cena com os seis branquelos cantando “Rapper’s Delight” em uníssono no carro é deliciosa, comprovando bem o sucesso do estilo e mais precisamente desse hit do trio Sugarhill Gang retratada na série Hip-Hop Evolution.