Slowdive – Slowdive (Dead Oceans; 2017)

31.05.2017 — Música, Resenhas

Algumas pessoas, com isso quero dizer alguns artistas e, mais especificamente, músicos, conseguem ter total consciência de como o tempo age em suas mentes e em seus limites. Não era possível saber exatamente como o tempo agia em Neil Halsted, Rachel Goswell e o resto do Slowdive até presenciar recentemente a um show do grupo e ouvir repetidas vezes ao seu novo disco, Slowdive, lançado 22 anos após Pygmalion.

A conclusão breve é que o Slowdive envelheceu como aquele tio zeloso e até orgulhoso com os próprios feitos de um passado não tão distante, mas totalmente consciente que já não é mais o jovem cheio de ideias e vontades de experimentar de outrora. Uma visão um tanto romântica e uma frase um tanto óbvia, mas é esse ato de autoexaminação constante de tudo que fizeram e de tudo que são capazes que faz de Slowdive um disco tão surpreendentemente bom.

Os instrumentos e elementos são basicamente os mesmos de décadas atrás, mas Neil toca sua guitarra como alguém examina caixas e mais caixas empoeiradas de fotos antigas na casa de seus pais. Com serenidade, muita consciência e certo saudosismo que não geram ansiedade pelo tempo passado, mas lhe deixam cada vez mais convicto que suas possibilidades atuais são algumas específicas. Vinte e dois anos, imagino, podem te deixar bem econômico e seguro naquilo que você tem a dizer e, se por um lado, não existe mais aquele ímpeto de se fazer misterioso e deixar frases nebulosas no ar com sussurros e experimentar musicalmente, por outro, o Slowdive se apoia na simplicidade e tem a certeza que uma melodia completa e bonita no meio dos elementos perfeitos de sempre (voz de Rachel, linhas de baixo precisas e um clima sempre intenso e único) bastará. Como bastam em “Slomo”, “Star Roving”, “Sugar for the Pill” e “No Longer Making Time”.

As caixas cheias de fotografias vão acabando e os dedos já estão pretos de poeira, mas quando você sem querer lambe um desses dedos para virar a página do último álbum e sente aquele gosto amargo da poeira acumulada de anos não é necessariamente ruim a sensação que fica, apenas um ótimo lembrete de quem você é.

8.5

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